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Editorial: Contrabando de “Mounjaro” expõe contradição após rejeição em massa à vacina da COVID-19
Apreensões frequentes de tirzepatida em Rio Preto (SP) revelam avanço do mercado ilegal e risco à saúde pública
Por Redação
22 de Abril de 2026 às 09:31
Durante a pandemia de COVID-19, o Brasil assistiu a um fenômeno que misturou medo, desinformação e desconfiança: a rejeição em massa às vacinas. Mesmo diante de estudos robustos conduzidos por instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e aprovadas por órgãos reguladores como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), milhões de brasileiros optaram por não se imunizar, questionando eficácia, segurança e até a própria ciência.
Agora, poucos anos depois, o cenário revela uma contradição difícil de ignorar: parte dessas mesmas pessoas corre, em desespero, atrás de soluções rápidas para emagrecimento — muitas vezes sem qualquer critério técnico ou respaldo científico sólido.
É o caso da febre em torno da Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida, originalmente desenvolvido para tratamento de diabetes tipo 2. Embora estudos clínicos indiquem potencial para perda de peso, o uso indiscriminado, fora de indicação médica e sem acompanhamento, tem se tornado uma prática preocupante. Pior: cresce o consumo de versões clandestinas, falsificadas ou manipuladas sem controle sanitário.
A incoerência salta aos olhos. Vacinas que passaram por rigorosos testes clínicos, com dados públicos e acompanhamento global, foram rejeitadas sob o argumento de “falta de confiança”. Já substâncias adquiridas no mercado paralelo, muitas vezes oriundas do Paraguai, sem procedência garantida e transportadas de forma irregular, são consumidas sem questionamento.
Na região noroeste paulista, esse problema ganhou contornos ainda mais graves. A área tem se consolidado como rota de contrabando desses produtos, com apreensões frequentes realizadas pela Polícia Rodoviária Federal.
Um exemplo recente escancara o risco. No último domingo (19/04), durante patrulhamento na BR-153, em São José do Rio Preto (SP), agentes da PRF abordaram um veículo Hyundai Creta, com placas de Patos de Minas (MG). A atitude suspeita da condutora motivou a fiscalização.
Durante a abordagem, os ocupantes apresentaram versões contraditórias sobre a viagem. Na busca veicular, os policiais encontraram uma caixa contendo 91 ampolas de substâncias análogas à tirzepatida, identificadas como “Lipoless”. Parte do material estava escondida dentro de frascos de shampoo, além de cosméticos e eletrônicos.
O cenário é alarmante. Produtos sensíveis, que exigem controle rigoroso de temperatura e armazenamento, estavam sendo transportados de forma clandestina, sem qualquer garantia sanitária. O veículo, a carga e os envolvidos foram encaminhados à Polícia Federal.
Mais do que um caso policial, o episódio revela um retrato social preocupante: a banalização do risco quando ele atende a um desejo imediato — neste caso, o emagrecimento rápido.
Dados de órgãos internacionais indicam que a hesitação vacinal durante a pandemia esteve fortemente associada à desinformação e à baixa confiança institucional. O problema é que essa mesma desconfiança não se aplica quando o apelo é estético. Pelo contrário: há uma aceitação quase cega de soluções milagrosas, mesmo quando envolvem ilegalidade.
A ciência não deixou de ser ciência — o que mudou foi a conveniência de quem decide quando acreditar nela.
A busca por saúde não pode ser guiada por modismos ou desespero. Medicamentos como a tirzepatida têm indicação específica, exigem prescrição e acompanhamento médico. Fora disso, o que se vê é um terreno fértil para fraudes, riscos à saúde e enriquecimento do crime organizado.
No fim das contas, a pergunta que fica é incômoda, mas necessária: por que tanta resistência ao que salva vidas — e tanta facilidade em aceitar o que pode colocá-las em perigo?
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